Assombrações vivas
Voltando para casa e tomando sustos
De volta para o passado
Chegou o fim de ano (isso ainda era verdade quando escrevi o texto, juro)! Com isso, também veio a hora de dar uma pausa em São Paulo e voltar para a cidade em que morei dos 13 aos 18 anos. Apesar do ressentimento, acho que ela nunca saiu completamente de mim, já que ainda guarda muitas pessoas especiais. E também outras que já foram especiais em algum desses cinco anos…
A cidade é um grande cemitério de amizades do passado, ex-ficantes, colegas de escola e ex-conhecidos (agora só desconhecidos?). Em resumo, pessoas que já fizeram parte da minha vida em alguma época. Eu a chamo de cemitério, mas os moradores estão por aí, vivíssimos, e daí vem o título do post. E ela não é tão populosa ou grande quanto São Paulo, então eu vivo dando de cara com essas assombrações.
Também é impossível caminhar por dez minutos sem passar em frente ao prédio de um “ex-alguém”. Me vejo tomando mais cuidado nesses momentos, como se fosse encontrar um dos fantasminhas. Vai que alguém acordou e pensou “vou ficar o dia todo parado na frente do meu prédio, vai ser ótimo!”.
Toda vez que saio de casa é um plano novo. Se vou ao shopping, quem mora lá perto? E quem pode só estar no shopping (como qualquer outra pessoa)? O que eu vou fazer se encontrar alguém que gosto andando com alguém com quem não converso mais? Por que essa cidade não podia ser maior, tipo São Paulo? Eu não encontro nenhum conhecido na rua em São Paulo, ué!
O mais engraçado é saber que essa ansiedade toda nem faz sentido. Esses encontros inesperados já aconteceram antes, mais de uma vez. E é sempre um aceno de cabeça, um “e aí”, um nada… E cada um segue com sua vida. Nunca foi um “sabe, Trevi, eu lembrei de uma coisa aqui…”.
A vida continua, mesmo quando não estou mais nela
Nem todos os afastamentos foram feios. Na verdade, a maioria só aconteceu, e talvez esses sejam os mais difíceis. Independentemente do fim, reencontrar essas pessoas deixa a passagem do tempo bem mais evidente, o que nem deveria me chocar tanto. Muitas coisas aconteceram comigo desde que me mudei, então por que isso não pode ser verdade para os outros também?
São novos cursos na faculdade, empregos, estilos, hábitos, relacionamentos, cortes de cabelo e bares favoritos. Novas pessoas, de certa forma. E acho que sempre vai ser difícil olhar para alguém e pensar “putz, nem te conheço mais”. Querendo ou não, é uma perda, e eu tenho bastante dificuldade com perdas.
Como uma moradora que virou visitante, tudo me parece meio repentino, como se o universo tivesse dado um fast forward na vida de todos esses ex-alguéns. Sempre me pego dizendo “como isso aconteceu?”. Sei lá, Trevi! O ensino médio acabou! O resto do mundo também mudou, mas eu não estava lá para ver e absorver essas mudanças aos poucos. Na minha visão, a história só avançou do nada, como um livro com capítulos faltando.
Algo além de finais
Apesar de tudo, esses reencontros não estão sempre carregados de ressentimento, estranheza e ansiedade. Meu grupo de amigas é formado por queridas que estudaram na minha escola, mas com quem eu não tinha proximidade até uns dois anos depois de formada. Foram reencontros seguidos por recomeços.
Mesmo assim, penso em como seríamos se isso tudo tivesse rolado antes: se andaríamos juntas no corredor do colégio, se almoçaríamos na casa uma da outra após a aula, se nossas versões antigas se dariam tão bem quanto as atuais. Mas não tem como saber. E nem importa, porque agora eu sempre as encontro quando volto para lá (de propósito!), e é essa a parte relevante.
Pensando em casos como esse, tento não ficar tão apreensiva. Mas a possibilidade de ver uma assombração no meio da rua continua não sendo tentadora, e faz parte. Não é o fim do mundo, e com certeza não vai me impedir de frequentar a cidade. Só vou tomar uns sustinhos de vez em quando.







Uma vez gravei um episódio para o meu podcast chamado "fantasmas com corpo", uns dias depois de um ex-ficante seguir-me no Instagram, após quase 1 ano de ghost. Findo esse ano, ele mandou-me mensagem alegando que ouviu o episódio, o que lhe deu coragem para querer acertar o que ficou pendente.... No auge da minha maturidade, agradeci o contacto, partilhei que já havia passado muito tempo para resolvermos as coisas e que eu estava em paz com o assunto. Pedi que não me voltasse a contactar, bloqueei e nunca mais ouvi falar dele.
Esses fantasmas andam por aí, em toda a parte. Cabe-nos a nós estar em paz com esses fins de ciclo (quer doem quer não), e avançar com a vida. Há momentos em que iremos apanhar um susto, mas em grande parte temos de estar preparados para isso.
Que partilha boa! Obrigada, Trevi 🫂